Propósito 

Já fazia tempo que observava os dois vasos de plantas. Um estava sempre repleto de flores e brotos. Não importava o clima ou a estação, quando caíam as pétalas, novas flores surgiam. 

O outro estava farto de folhas. Verdes. Vivas. Bonitas. Mas nunca flores.

As duas plantas eram do mesmo tipo. Ganhavam a mesma água. A mesma atenção. 

A verdade é que a dona não entendia por que apenas uma de suas plantas se desenvolvia com plenitude. Ela já estava começando a suspeitar que a terra da planta sem flores estava mal cuidada. Revirou o solo, irrigou e observou. Mas nada. 

Mesmo sem flores ela não desistiu daquele vaso, afinal cada planta é única. Mas a planta sem flores ficou lá. Discreta. Sem todo o brilho e atenção sobre ela.
Até que um dia a dona se cansou da organização do ambiente e resolveu mover as coisas de lugar. E não é que o vaso de planta sem flores foi esquecido do lado de fora da janela? Os vasos que sempre estiveram lado a lado foram separados pela primeira vez.

Demorou um tempo até a dona se dar conta que o pobrezinho havia ficado do lado de fora. Afinal o vaso florido, esplêndido em sua magnitude, lhe ocupava bastante a atenção.

Mas ela se deu conta. E seu desespero foi proporcional à sua surpresa. Lá estava ele. O vaso que nunca dava flores… prestes a florescer encantadoramente. Lindo. Completo. Iluminado.

Iluminado.

Até então o vaso havia passado a vida inteira sob a sombra do outro. Foi só receber luz que serviu ao seu propósito lindamente.

O silêncio 

O silêncio nunca foi incômodo para ela. Pelo contrário, era seu melhor amigo.

O mundo já parecia barulhento de mais. O silêncio era o único lugar em que podia se encontrar consigo mesma. 

Mas aprendeu que, para a maioria das pessoas, se relacionar significava ruído, explosão, barulho. E assim foi se habituando aos poucos. 

Ensaiava assuntos bobos para falar caso aparecesse o silêncio. Nem todos lidavam bem com o seu amigo íntimo. Aprendeu a aceitar a intromissão sonora do mundo em seu universo particular, embora na maioria das vezes buscasse refúgio em si própria. E assim foi indo. Entendendo que o mundo funcionava assim.

Até que um dia conheceu ele. Mais tagarelo do que todos que já havia conhecido. Ele tinha opinião sobre tudo. Se virava bem com qualquer pessoa. Em qualquer situação. Mesmo sem falar a mesma língua.

Como pode ser possível?

O choque de mundos foi inevitável. Eram versões extremas um do outro. No início, sempre havia desentendimentos. Ela não lidava bem com aquele turbilhão de palavras. Ele ficava inseguro com o seu silêncio.

Até que chegou um dia. Naquele dia os dois ficaram horas conversando. Falaram sobre a infância. Sonhos. Medos. Contaram coisas que ninguém mais teria coragem de dizer.

E ela entendeu que o barulho podia ser música. Entendimento. Paz.

Também vieram dias em que nada tinham para dizer. E o silêncio dela finalmente encontrou um parceiro. Alguém para dividir os momentos em que o mundo parecia intruso e inoportuno.

Aquela música 

Já fazia muito tempo que não conversavam. Ou melhor, não como fazem verdadeiros amigos. Falavam, é claro. Pelo telefone… redes sociais. 

Mas não o bastante. Nada profundo como costumavam fazer com facilidade.

Antes as horas passavam e os assuntos iam fluindo com naturalidade. Para quem estava de fora era difícil entender. Mas eles se entendiam. Sem pretensões. Sem intencionalidades alternativas. 

Apenas amizade. Duas almas ansiosas que nada sabiam do futuro e encontravam algum consolo na companhia do outro.

E por isso ela estava ansiosa.

Ansiosa. Que novidade! (Pensou de má vontade enquanto ajeitava o sorriso torto)

A verdade é que incomodava pensar que estava se arrumando para reencontra-lo. – Não se arrumando para um encontro amoroso, veja bem. Não havia esta intenção por debaixo dos panos. – Era ansiedade para saber se ele ainda a admirava como antigamente. Se a conversa fluiria ao natural. Se ainda seriam as mesmas almas inquietas dividindo sonhos e medos. 

Que bobagem. 

E o sorriso torto se fixou no rosto. E lá foi ela. 

No início o encontro foi cheio de dedos. Quase como se não soubessem como agir. Mas eles foram se soltando aos poucos.

Mas algo incomodava dentro do peito. Era como se faltasse alguma coisa. 

Instintivamente (ou nem tanto) ela fez o gancho com o passado na tentativa de recuperar o que parecia ter se perdido. 

Ela puxou o celular do bolso e colocou a música deles. Não era uma música romântica, era uma música que falava sobre poder contar com o outro. Sobre estar disponível de verdade para alguém, apesar dos tumultos da vida.

Ele ouviu a música com um sorriso no rosto. Mas o caso é que ele não lembrava ser a música deles. Nem o contexto em que eles a escutavam. Nem o que queria dizer aquela letra. Nem nada.

O esquecimento dele foi a lembrança mais esmagadora para ela. De repente ela se deu conta. 

Agora já somos almas estranhas um para o outro.

Aquela música já não significava mais nada para eles. Para ela, resumia uma perda irrecuperável.

Universo

Cada pessoa é um universo.

Com esse pensamento ele abriu os olhos. Já havia desistido de dormir.

Pulou da cama e se vestiu. Precisava ver gente.

A escolha foi a mesma de sempre: seu parque preferido. Lugares públicos repletos de pessoas traziam a sensação de companhia. Normalidade.

Ele sentou no banco de costume e ficou observando os passantes. 

Algumas pessoas se tornaram conhecidas ao longo dos passeios. Reparou que alguns casais se formaram e outros romperam. Era comum ver grupos de jovens que se reuniam semanalmente para fazer as mesmas coisas.

E tinha ela.

Ela. Apenas ela. 

Ela sempre sentava no mesmo lugar, próxima da estátua. 

Com receio de ser flagrado olhando para ela, ele inventava motivos para olhar em sua direção. Mas não havia perigo. Ela estava sempre olhando para cima. O céu. Os prédios ao redor. A estátua. Sim, a estátua parecia intriga-la.

Semana após semana ele se preparava para aquele encontro. E ela não tinha ideia.

Não era a beleza dela que chamava sua atenção. Era bonita, sem dúvida. Mas o que mais lhe atraía nela era sua familiaridade em ficar sozinha. 

Alguém que sabe ficar sozinho é sempre boa companhia.

E por isso ele tinha medo. Não queria interromper o encontro que ela tinha consigo mesma. Não queria estragar aquela experiência alheia aos outros. Queria manter o mundo dela intacto.

Mas também queria fazer parte daquele universo. 

Por que ela sempre vem sozinha? De onde vem tanta confiança? E por que diabos olha tanto para essa estátua?

E assim ele passava o dia no parque. Alheio a tudo, exceto ela. 

A cada semana o mesmo encontro silencioso. Dois universos inteiros que orbitavam o mesmo espaço sem interagir. 

Cada pessoa é um universo.

Os palcos da vida

Ela sempre teve dificuldade em interpretar papéis na vida real. 

Assumir personagens que não lhe cabiam causava uma angústia imensa.

E era justamente isso que ela observava acontecer com as pessoas a sua volta. Já não podia conversar sem que o outro desempenhasse um papel. Antes de terminar o que estava dizendo, era comum ouvir a outra parte do falso diálogo.

Ali estava abrindo o coração e o outro… bem, estava preocupado com sua próxima fala.

E assim foi desistindo. Abrir-se para o mundo se tornou uma peça para plateias pequenas.

Cada vez mais escolhia o improviso aos grandes monólogos. A roupa neutra aos grandes figurinos.

Assistir a outras peças? Somente as de maravilhosos atores. Verossímeis. Singelos. Grandes em sua honestidade.

Os grandes grupos teatrais da vida reduziram-se a companhia de poucos. O menos tornou-se mais.

Num estilo cada vez mais realista, o desconforto com os diversos palcos enfrentados no dia a dia ficou cada vez mais evidente.

E assim ela foi reduzindo. Reduzindo os roteiros. Os atores. A plateia e os holofotes.

A crítica talvez tenha aumentado. Não sabe dizer. Já não lia o que escreviam sobre si.

O esquecido

A cada semana a professora elegia um estudante para ser o ajudante da turma. 

A cada semana ele esperava ser escolhido.

Um ano inteiro. Mais de 52 semanas. Como era possível que ele nunca fosse o ajudante?

Ansiosamente, ele esperava aquele momento. Já chegara até a sonhar com a professora chamando o seu nome. Os colegas bateriam palmas. A foto dele iria para o mural. Ele apagaria o quadro. Ele buscaria o giz. Ele ajudaria a professora a carregar os livros.

Mas nada disso.

Semana após semana ele renovava as esperanças e ia novamente para casa sem sucesso.

Ele já estava com medo de ser alvo de deboche dos colegas e da escola. Mas não. Ninguém notava que ele não era lembrado. 

Apenas o esquecimento incômodo. E o esquecimento, embora silencioso, gritava dentro dele. 

Evidentemente ele cresceu. Que escolha tinha?

Hoje ele tem um trabalho. Família. Amigos. Ele escolhe o que quer para sua vida.

Exceto pelo chefe. 

Todos são escolhidos para homenagens e promoções. 

Menos ele.

Mas ele aguarda. Sente no fundo do coração que um dia vão lembrar do nome dele. E os colegas vão bater palmas. A foto dele irá para o mural.

Iceberg

Era perigoso pensar nela. Ele sabia disso.

E apesar dos avisos instintivos, era só o que sabia fazer.

Ela era efemeridade, explosão. Mas também tinha um mundo inteiro que não revelava. Ela mesmo já havia admitido.

Eu sou toda quebrada por dentro.

Ainda sim, ele pensava nela. Não tinha outro jeito. Já era tarde.

Todo dia ele acordava e prometia que seria diferente. O caminho para o trabalho era carregado de fluidez, pensamentos livres e sensação de retomada.

Então ele chegava. E naturalmente procurava por ela.

Ela não está aqui. Ótimo.

(Inquietação)

E se… Para!

Mas ele não conseguia evitar. Tinha mais alguém que também não estava ali.

Estariam eles juntos?

E a ideia pinicava os pensamentos dele.

O trabalho… bem, era difícil se concentrar assim.

Mas ele se esforçava. Passado um tempo era possível executar suas atividades. Não com toda dedicação, admitia. 

De repente alguém comentou que o colega não viria trabalhar hoje. Estava doente.

Mais do que queria admitir para si mesmo, sentiu alívio.

Ele está doente e ela deve estar ocupada em suas tarefas diárias.

Logo que completou esse pensamento, ela apareceu na porta.

Leve como sempre. Com seu mundo quebrado. Efêmero. Explosivo.

Ele aguentou alguns segundos intermináveis sem buscar o seu olhar. 

Sem sucesso, encarou aquele par que o esmagava por dentro. 

Ela retribuiu. Mas o olhar era diferente.

Parece um pedido de desculpas.

E ele sentiu. Era o seu iceberg carregado de emoções que aparecia um pouco mais naquele dia.

O vento

Ela estava em cima da árvore preferida. Como sempre. Era o seu refúgio para momentos como esse.

De lá ela observava todo mundo e ninguém nunca a via. Já reparou como as pessoas olham pouco para cima?

O silêncio era sua companhia preferida. Iluminava os pensamentos e ajudava a enxergar a situação de um jeito mais nítido. Doía menos assim.

De quebra podia ouvir e acompanhar o caminhar dos outros. Cada um no seu ritmo, imerso em pensamentos.

Quais serão os problemas deles?

Indagar sobre tudo que os outros enfrentaram ajudava a criar coragem.

No fim das contas todo mundo cresce.

Mas aí quando tudo parecia simples, alguma coisa cutucava. 

Sensação estranha.

Nada era tão simples assim. Não pra ela.

E ela desejava não ser tão profunda. Tanta maturidade e inteligência… 

Eu podia ser que nem essas pessoas. 

O galho no qual estava sentada começou a incomodar, como se quisesse expulsa-lá dali. 

Mas ela ainda não se sentia preparada para descer e encarar o mundo.

Fechou os olhos.

Apenas respira.

De repente ela percebeu que não era só o silêncio que lhe fazia companhia.

Ela sorriu ainda de olhos fechados.

Eu sempre amei o vento.

O vento lambeu o rosto dela. Os cabelos. As lágrimas e até o sorriso.

O mesmo vento que leva traz.

Pudim

Mais um jantar de fim de ano. Aos poucos todos os parentes foram chegando. 

Nas mãos os presentes, nos rostos o esforço. Esforço para deixar tudo no passado. Esforço para renovar as expectativas. E principalmente esforço para responder a todas as perguntas constrangedoras.

Lá vem a tia Ana.

A tia Ana veio carregada. De ansiedade. 

Ele riu mentalmente.

Ela disparou as perguntas. 

O coitado desviou do que pode, mas no fim acabou cedendo. 

Lá vai ela toda satisfeita.

E então chegou a hora do jantar. As mesmas histórias. Os mesmos elogiados. Os mesmos criticados.

E ele foi se afogando nas angústias, na insegurança, nos medos e… 

Ah meus defeitos.

O suspiro encheu as costelas e se perdeu no meio do caminho. Até o suspiro estava assustado. 

Levantou da mesa.

Isso deve ser efeito do Natal. Vou dar uma volta. 

Observando os enfeites da árvore natalina, a vida pareceu certa. No ritmo. 

Dessa vez o suspiro foi completo.

Hora da sobremesa!

Um monte de doces. Ele, orgulhoso, trouxe o mais caro que encontrou.

Ninguém se serviu desse. Todos queriam pudim. 

O suspiro pareceu não querer mais dar as caras.

Eu queria ser que nem pudim.

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